A Máquina não se cala e eu preciso de pensar

Vamos ser francos: a internet com a sua hiperconectividade mudou a nossa vida. 

A Internet é talvez a tecnologia com mais impacto no paradigma comunicacional do século XXI. Graças à evolução acelerada das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), que através do ciberespaço digital permitiram ligar as pessoas das sociedades modernas, a realidade atual já não é um simples estar presencial/desconectado (offline), ou estar digital/conectado (online). A nossa realidade é mais “rica”, não se resumindo ao mero estar on ou off. É nesta constatação que Moreira & Schlemmer criaram um conceito OnLife. Como conceito socio filosófico, demonstra que tecnologia digital se tornou uma força ambiental que molda a nossa identidade, as nossas relações e a forma como percebemos o mundo. Todos falam da maravilha que é a hiperconectividade, e que de facto é, mas ninguém fala do cansaço que ela nos causa e como pode ser uma máquina de moer gente.

E é aqui neste ponto que vos quero falar - nesta a temática que mói: a Fadiga Digital. Porque entre o querer estar ligado e a capacidade de aguentar a pedalada, há um fosso de exaustão que ninguém quer ver.

Floridi diz que a Infoesfera é o nosso novo habitat, mas esquece-se que nenhum bicho aguenta estar em alerta 24 horas por dia. Neste habitat, como sublinha Manuel Castells (2016), a cultura é baseada no indivíduo conectado, movido por emoções e sentimentos que antecedem a própria razão. O Byung-Chul Han tem razão quando diz que vivemos na "sociedade do cansaço". No OnLife, o digital não é uma ferramenta, é uma força ambiental que nos entra pelos olhos e pelos ouvidos sem pedir licença. E o professor? O professor está no meio disto tudo a tentar "construir a jangada" (Schlemmer & Moreira, 2022), mas a verdade é que a jangada está a meter água porque estamos todos exaustos de tanta luz de ecrã – é luz de manhã, à tarde e à noite.

Hoje em dia, ter literacia digital é fundamental – saber viver OnLife tornar-se-á condição de sobrevivência (?), mas será que ela consistirá apenas em saber usar o ChatGPT ou montar uma aula no Moodle?

A verdadeira competência OnLife, a mais realista e urgente, é o Direito ao Silêncio. É saber quando é que a máquina tem de calar a boca para o humano poder pensar. O Hubert Dreyfus avisou que a aprendizagem exige presença e compromisso, mas como é que se tem compromisso quando se tem dez janelas abertas e o cérebro em modo "fritadeira"?

O arquétipo do professor OnLife desejável, para mim, não é a pessoa que está sempre "on", é aquela que tem a coragem de ficar "off" quando é preciso. É o mestre que percebe que a inteligência humana aumentada (o tal exocérebro de que falei) também precisa de tempo de antena, de vazio, de tédio. Se a máquina faz a síntese algorítmica num segundo, o humano precisa de uma tarde inteira para digerir o que aquilo significa. Sim, mais do que competência é preciso talento para desligar.

OnLife é afinal um ambiente de comunicação, partilha, ensino e aprendizagem que permite interagir através de modelos híbridos e flexíveis. Mas a flexibilidade muitas vezes é só uma desculpa para estarmos sempre disponíveis. Daqui para a frente, o professor realista será um Guardião do Tempo. É aquele que, no meio da Infoesfera, consegue criar bolhas de silêncio cognitivo. A Sherry Turkle diz que estamos "juntos mas sozinhos", e é verdade. Estamos todos ligados, mas ninguém se ouve.

O desafio então não é integrar o digital, porque o digital já se integrou a ele próprio, queira a gente ou não. O desafio é não deixar que o digital nos coma o resto de humanidade que sobra. O professor OnLife que eu quero ver é aquele que diz aos alunos: "Bem, agora desliguem tudo. Vamos só pensar, ok?" Porque se a resposta é automatizada e instantânea, o valor da educação está no tempo que levamos a fazer a pergunta. E para fazer perguntas a sério, é preciso silêncio.

O fôlego que separa o querer do ser, aqui, é o fôlego da nossa própria biologia que não acompanha a velocidade do silício. E se calhar, a maior lição que podemos dar hoje é que não faz mal não ser hiperconectado o tempo todo. A educação do futuro, se quiser ser realista, tem de aprender a carregar no botão de 'pause'."




Dreyfus, H. L. (2001). On the Internet. Routledge. https://archive.org/details/oninternetthinki00hube

Floridi, L. (Ed.). (2015). The onlife manifesto: Being human in a hyperconnected era. SpringerNature.

Fronteiras do Pensamento. (2016, 27 de junho). Manuel Castells – Indivíduo e coletividade [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=rgmCjuNVLSg

Han, B.-C. (2022). Infocracia: Digitalização e a crise da democracia (M. C. de Almeida, Trad.). Relógio D'Água.

Moreira, J. A., Schlemmer, E., & Ferreira, A. G. (2021). Educação OnLIFE: A dimensão ecológica das arquiteturas digitais de aprendizagem. Revista Brasileira de Educação, 26, e260051. https://doi.org/10.1590/S1413-24782021260051

Schlemmer, E., & Moreira, J. A. (2022). Arquiteturas híbridas e educação OnLife. Editora Unisinos.

Mota, R. (2015, 14 de setembro). A complexidade de educar. (M. Kuzuyabu, Entrevistador). Revista Ensino Superior.

https://revistaensinosuperior.com.br/2015/09/14/a-complexidade-de-educar/

Turkle, S. (2016). Reclaiming conversation: The power of talk in a digital age. Penguin Books.


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