Da Prática Jurídica ao Paradigma OnLife
A reflexão que aqui apresento nasceu de um exercício de escuta e conexão. Recentemente, ao acompanhar um debate promovido pela Ordem dos Advogados sobre o impacto da Inteligência Artificial, vi-me confrontada com questões que transcendem a técnica jurídica. No diálogo entre os especialistas, as preocupações com a formação de um pensamento crítico versus uma mera proficiência técnica, a perda de autonomia perante o algoritmo e a crescente complexidade da verdade, ilustrada pelo desafio quase surreal das deepfakes na obtenção de prova digital,fizeram um clique nas minhas próprias interrogações pedagógicas.
Foi este cenário de transformação
radical na advocacia que me instigou a estabelecer um diálogo direto com o
conceito de Educação OnLife. Se a perspetiva OnLife nos convida a reconhecer
que já não habitamos realidades estanques, mas sim uma teia reticular onde o
digital e o presencial se fundem na nossa condição humana, o debate jurídico
serviu de alerta: esta imersão não é neutra.
O que me proponho investigar,
partindo desta provocação da prática jurídica, é se a inovação educativa está
de facto a potenciar novos horizontes de liberdade ou se estamos apenas a
sucumbir a uma "ilusão de adaptação". Interessa-me questionar se, ao
celebrarmos a conectividade incessante, não estaremos a negligenciar o treino
moroso do juízo e a densidade intelectual que tanto um advogado quanto um
estudante precisam para não se tornarem meros operadores de sistemas
inteligentes.
***
A perspetiva da educação OnLife - a
superação da dicotomia entre o presencial e o digital, é uma perspetiva é
sedutora. Faz sentido reconhecermos que habitamos uma realidade intrinsecamente
híbrida, uma teia reticular onde plataformas, dispositivos, fluxos de
informação e múltiplas formas de presença se entrelaçam, transcendendo a
simplista divisão entre online e offline. Moreira e Schlemmer, por exemplo,
advogam a Educação Digital OnLife como um novo paradigma, perfeitamente
alinhado com uma sociedade de conectividade incessante. Floridi, por sua vez,
esclarece que esta metamorfose não é meramente tecnológica; é uma metamorfose
da própria condição humana, moldada por uma era hiperconectada. Até este ponto,
o argumento flui sem atrito.
Contudo, a meu ver, a situação é
mais complexa. Não vejo na transição para uma educação OnLife, por si só, a
garantia de uma aprendizagem mais inteligente, aberta e democrática. Não
consigo partilhar deste otimismo desmedido. E não é por ser avessa à inteligência
artificial, bem pelo contrário. Sou uma defensora do seu uso, desde que este
seja eticamente balizado, intelectualmente escrutinado e pedagogicamente
debatido. A IA tem de facto um potencial de expandir horizontes na pesquisa, na
síntese, na personalização e no acesso à informação e conhecimento. Pode
otimizar o nosso tempo, inclusive, libertar energias para empreendimentos mais
exigentes. Mas seria ingénuo ignorar os seus custos. E alguns deles já se
manifestam.
O vídeo da Ordem dos Advogados,
sobre inteligência artificial que junto nesta reflexão, ilustrou esta realidade
com clareza, especialmente nas intervenções que sublinham os impactos concretos
da tecnologia na prática profissional. O ponto que mais me marcou,
particularmente nas observações do Professor Manuel David Masseno, foi a recusa
de uma leitura acrítica da inovação. Reparem, o vídeo não se limita a
apresentar a IA como uma ferramenta útil, mas antes revela como ela reabre
debates cruciais sobre responsabilidade, prova, confiança, enviesamento,
manipulação e formação profissional. No campo da advocacia, as tarefas mais
rotineiras podem ser automatizadas com relativa facilidade. No entanto, o cerne
da profissão permanece inalterado. Continua a exigir interpretação, ponderação,
prudência, sentido estratégico e uma responsabilidade ética inabalável perante
indivíduos concretos. É precisamente esta complexidade que torna a discussão
tão pertinente para quem se dedica ao estudo da educação.
Na minha perspetiva, a conexão
entre este debate e a educação OnLife é mais intrincada do que por vezes se
admite no contexto académico. Se a vida profissional está a ser reconfigurada
pela automação cognitiva, a educação não pode contentar-se em celebrar
ambientes conectados, redes colaborativas e novas ecologias de aprendizagem.
Impõe-se uma questão mais desconfortável: que tipo de sujeito está
a ser forjado neste processo? Um indivíduo intelectualmente mais
autónomo ou meramente mais adaptável? Um profissional
mais reflexivo ou simplesmente mais eficiente na manipulação
de interfaces? É neste ponto que o meu entusiasmo arrefece.
No caso da advocacia, o risco mais
evidente reside na formação de profissionais que dominam a operação de
sistemas, mas que gradualmente perdem o treino moroso do juízo. Uma análise
recente do Thomson Reuters Institute reitera esta preocupação: se a IA assumir
tarefas de iniciação profissional, como a pesquisa, a redação e a revisão, o
desenvolvimento do chamado julgamento jurídico - a capacidade de decidir com
critério em situações ambíguas, de avaliar fontes, de ponderar a autoridade e
de agir eticamente sob pressão - pode ser comprometido. A American Bar
Association reconhece, de forma análoga, que as faculdades de Direito debatem
não apenas como integrar a IA, mas como ensinar a compreendê-la e a gerir os
dilemas éticos que ela suscita. Isto parece-me fundamental. A inovação genuína
manifesta-se quando uma instituição se dispõe a autoavaliar-se, e não apenas a
adotar novas ferramentas.
Por conseguinte, quando o conceito
de educação OnLife é invocado com excessivo otimismo, sinto a necessidade de
introduzir uma ressalva. Sim, é pertinente conceber a aprendizagem para além da
oposição entre presença física e digital. Sim, é importante reconhecer que o
conhecimento hoje circula em rede, de forma distribuída, fluida e
frequentemente colaborativa. Contudo, esta constatação não nos deve cegar para
o facto de que a mesma lógica de rede também engendra novas hierarquias,
dependências e formas de vigilância. A conectividade nem sempre emancipa; por
vezes, apenas acelera. E acelerar não é sinónimo de educar..
É neste ponto que clarifico a minha
posição pessoal. Não encaro a IA como uma ameaça direta ao pensamento crítico
como tenho escutado muito por aí. O pensamento crítico não se desvanece por
causa de uma ferramenta; ele definha, sim, quando deixamos de o exigir, de o
cultivar e de o valorizar. A ameaça mais premente, no campo educativo,
parece-me outra. Reside na metamorfose do professor num mero gestor de
plataformas, monitor de tarefas e regulador de fluxos digitais de aprendizagem.
Esta mutação é mais subtil, mas talvez mais profunda. Se o docente se tornar
predominantemente aquele que organiza ambientes, responde a métricas, acompanha
painéis de controlo e assegura a circulação eficiente dos estudantes por
ecossistemas digitais, algo de profundamente sério se perde. Perde-se a
densidade intelectual da relação pedagógica. Perde-se a autoridade
epistemológica no seu sentido mais nobre, não como poder hierárquico, mas como
uma presença que interpela, contradiz, exige e acompanha.
Talvez seja precisamente nesta
encruzilhada que a reflexão sobre a advocacia presente nos ilumine na
compreensão da educação. O vídeo demonstra uma profissão tradicional a
discernir o que pode ser delegado às máquinas sem abdicar do seu núcleo ético e
prudencial. A educação enfrenta hoje um dilema semelhante. Que parcela do ato
de ensinar pode ser tecnicamente mediada sem que a própria essência educativa
seja diminuída? Que parte pode ser automatizada sem que a formação se torne
superficial, funcional e excessivamente dependente de lógicas instrumentais?
Não possuo respostas definitivas. Mas parece-me um erro crasso fingir que esta
tensão não existe.
A expressão OnLife é valiosa por
nomear com precisão o nosso tempo. Já não vivemos metade no digital e metade
fora; vivemos imersos. Pensamos, lemos, escrevemos, decidimos, ensinamos e
trabalhamos num ambiente perpassado por mediações técnicas quase contínuas. O
que me interessa, contudo, não é reiterar este diagnóstico, que hoje se tornou
relativamente consensual. O que me interessa é questionar que tipo de formação
humana almejamos construir dentro deste contexto? Se a resposta se limitar à
adaptação, à literacia funcional e à fluidez tecnológica, estaremos a confundir
educação com mera gestão de transição. E isso é manifestamente insuficiente,
não acham?
No fundo, esta foi a síntese que
extraí do cruzamento entre a perspetiva OnLife e as questões levantadas no
vídeo da Ordem dos Advogados. A inovação educativa em rede não pode ser
celebrada como uma apologia automática da tecnologia. Deve ser encarada como um
exercício de discernimento. Não basta preparar os estudantes para habitar um
mundo saturado de IA; é imperativo prepará-los para resistir à sedução de
delegar excessivamente nela. E, simultaneamente, é crucial salvaguardar o papel
do professor para que este não se converta num mero operador de sistemas
pedagógicos inteligentes. Continuo a ser um entusiasta do uso ético da IA.
Contudo, quanto mais aprofundo esta reflexão, menos crédito dou a discursos
simplistas sobre uma modernização inevitável.
Há transformações que abrem portas
a novas possibilidades. Há outras que apenas esvaziam funções ancestrais,
rebatizando-as. Nem sempre isso é progresso.
Referências
Atilla-Aydın, S., &
Lammasniemi, L. (2025). Preparing guidelines for generative AI in law schools:
Student perspectives and educational implications. The Law Teacher.
Advance online publication. https://doi.org/10.1080/03069400.2025.2585427
Floridi, L. (Ed.). (2015). The
onlife manifesto: Being human in a hyperconnected era. Springer
Nature. https://doi.org/10.1007/978-3-319-04093-6
Moreira, J. A., & Schlemmer, E.
(2020). Por um novo conceito de e-learning na educação digital onlife. Revista
UFG, 20. https://doi.org/10.5216/revufg.v20.63438
Ordem dos Advogados - Conselho
Regional de Lisboa. (2024, 11 de abril). POD ESCLARECER 85 | Inteligência
Artificial [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=Jg9-1Uu5szY&t=18s
Rose, E. (2026). Impact of
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Ibadan. ResearchGate. https://www.researchgate.net/publication/402776919_Impact_of_AI_on_Legal_Education_and_Professional_Competency_Standards
Thomson Reuters Institute. (2024, 2
de abril). Honing legal judgment: The AI era requires changes to how
lawyers are trained during and after law school. Thomson Reuters. https://www.thomsonreuters.com/en-us/posts/legal/honing-legal-judgment-training-lawyers/

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