Da Prática Jurídica ao Paradigma OnLife



A reflexão que aqui apresento nasceu de um exercício de escuta e conexão. Recentemente, ao acompanhar um debate promovido pela Ordem dos Advogados sobre o impacto da Inteligência Artificial, vi-me confrontada com questões que transcendem a técnica jurídica. No diálogo entre os especialistas, as preocupações com a formação de um pensamento crítico versus uma mera proficiência técnica, a perda de autonomia perante o algoritmo e a crescente complexidade da verdade, ilustrada pelo desafio quase surreal das deepfakes na obtenção de prova digital,fizeram um clique nas minhas próprias interrogações pedagógicas.

Foi este cenário de transformação radical na advocacia que me instigou a estabelecer um diálogo direto com o conceito de Educação OnLife. Se a perspetiva OnLife nos convida a reconhecer que já não habitamos realidades estanques, mas sim uma teia reticular onde o digital e o presencial se fundem na nossa condição humana, o debate jurídico serviu de alerta: esta imersão não é neutra.

O que me proponho investigar, partindo desta provocação da prática jurídica, é se a inovação educativa está de facto a potenciar novos horizontes de liberdade ou se estamos apenas a sucumbir a uma "ilusão de adaptação". Interessa-me questionar se, ao celebrarmos a conectividade incessante, não estaremos a negligenciar o treino moroso do juízo e a densidade intelectual que tanto um advogado quanto um estudante precisam para não se tornarem meros operadores de sistemas inteligentes. 

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A perspetiva da educação OnLife - a superação da dicotomia entre o presencial e o digital, é uma perspetiva é sedutora. Faz sentido reconhecermos que habitamos uma realidade intrinsecamente híbrida, uma teia reticular onde plataformas, dispositivos, fluxos de informação e múltiplas formas de presença se entrelaçam, transcendendo a simplista divisão entre online e offline. Moreira e Schlemmer, por exemplo, advogam a Educação Digital OnLife como um novo paradigma, perfeitamente alinhado com uma sociedade de conectividade incessante. Floridi, por sua vez, esclarece que esta metamorfose não é meramente tecnológica; é uma metamorfose da própria condição humana, moldada por uma era hiperconectada. Até este ponto, o argumento flui sem atrito.

Contudo, a meu ver, a situação é mais complexa. Não vejo na transição para uma educação OnLife, por si só, a garantia de uma aprendizagem mais inteligente, aberta e democrática. Não consigo partilhar deste otimismo desmedido. E não é por ser avessa à inteligência artificial, bem pelo contrário. Sou uma defensora do seu uso, desde que este seja eticamente balizado, intelectualmente escrutinado e pedagogicamente debatido. A IA tem de facto um potencial de expandir horizontes na pesquisa, na síntese, na personalização e no acesso à informação e conhecimento. Pode otimizar o nosso tempo, inclusive, libertar energias para empreendimentos mais exigentes. Mas seria ingénuo ignorar os seus custos. E alguns deles já se manifestam.

O vídeo da Ordem dos Advogados, sobre inteligência artificial que junto nesta reflexão, ilustrou esta realidade com clareza, especialmente nas intervenções que sublinham os impactos concretos da tecnologia na prática profissional. O ponto que mais me marcou, particularmente nas observações do Professor Manuel David Masseno, foi a recusa de uma leitura acrítica da inovação. Reparem, o vídeo não se limita a apresentar a IA como uma ferramenta útil, mas antes revela como ela reabre debates cruciais sobre responsabilidade, prova, confiança, enviesamento, manipulação e formação profissional. No campo da advocacia, as tarefas mais rotineiras podem ser automatizadas com relativa facilidade. No entanto, o cerne da profissão permanece inalterado. Continua a exigir interpretação, ponderação, prudência, sentido estratégico e uma responsabilidade ética inabalável perante indivíduos concretos. É precisamente esta complexidade que torna a discussão tão pertinente para quem se dedica ao estudo da educação.

Na minha perspetiva, a conexão entre este debate e a educação OnLife é mais intrincada do que por vezes se admite no contexto académico. Se a vida profissional está a ser reconfigurada pela automação cognitiva, a educação não pode contentar-se em celebrar ambientes conectados, redes colaborativas e novas ecologias de aprendizagem. Impõe-se uma questão mais desconfortável: que tipo de sujeito está a ser forjado neste processo? Um indivíduo intelectualmente mais autónomo ou meramente mais adaptável? Um profissional mais reflexivo ou simplesmente mais eficiente na manipulação de interfaces? É neste ponto que o meu entusiasmo arrefece.

No caso da advocacia, o risco mais evidente reside na formação de profissionais que dominam a operação de sistemas, mas que gradualmente perdem o treino moroso do juízo. Uma análise recente do Thomson Reuters Institute reitera esta preocupação: se a IA assumir tarefas de iniciação profissional, como a pesquisa, a redação e a revisão, o desenvolvimento do chamado julgamento jurídico - a capacidade de decidir com critério em situações ambíguas, de avaliar fontes, de ponderar a autoridade e de agir eticamente sob pressão - pode ser comprometido. A American Bar Association reconhece, de forma análoga, que as faculdades de Direito debatem não apenas como integrar a IA, mas como ensinar a compreendê-la e a gerir os dilemas éticos que ela suscita. Isto parece-me fundamental. A inovação genuína manifesta-se quando uma instituição se dispõe a autoavaliar-se, e não apenas a adotar novas ferramentas.

Por conseguinte, quando o conceito de educação OnLife é invocado com excessivo otimismo, sinto a necessidade de introduzir uma ressalva. Sim, é pertinente conceber a aprendizagem para além da oposição entre presença física e digital. Sim, é importante reconhecer que o conhecimento hoje circula em rede, de forma distribuída, fluida e frequentemente colaborativa. Contudo, esta constatação não nos deve cegar para o facto de que a mesma lógica de rede também engendra novas hierarquias, dependências e formas de vigilância. A conectividade nem sempre emancipa; por vezes, apenas acelera. E acelerar não é sinónimo de educar..

É neste ponto que clarifico a minha posição pessoal. Não encaro a IA como uma ameaça direta ao pensamento crítico como tenho escutado muito por aí. O pensamento crítico não se desvanece por causa de uma ferramenta; ele definha, sim, quando deixamos de o exigir, de o cultivar e de o valorizar. A ameaça mais premente, no campo educativo, parece-me outra. Reside na metamorfose do professor num mero gestor de plataformas, monitor de tarefas e regulador de fluxos digitais de aprendizagem. Esta mutação é mais subtil, mas talvez mais profunda. Se o docente se tornar predominantemente aquele que organiza ambientes, responde a métricas, acompanha painéis de controlo e assegura a circulação eficiente dos estudantes por ecossistemas digitais, algo de profundamente sério se perde. Perde-se a densidade intelectual da relação pedagógica. Perde-se a autoridade epistemológica no seu sentido mais nobre, não como poder hierárquico, mas como uma presença que interpela, contradiz, exige e acompanha.

Talvez seja precisamente nesta encruzilhada que a reflexão sobre a advocacia presente nos ilumine na compreensão da educação. O vídeo demonstra uma profissão tradicional a discernir o que pode ser delegado às máquinas sem abdicar do seu núcleo ético e prudencial. A educação enfrenta hoje um dilema semelhante. Que parcela do ato de ensinar pode ser tecnicamente mediada sem que a própria essência educativa seja diminuída? Que parte pode ser automatizada sem que a formação se torne superficial, funcional e excessivamente dependente de lógicas instrumentais? Não possuo respostas definitivas. Mas parece-me um erro crasso fingir que esta tensão não existe.

A expressão OnLife é valiosa por nomear com precisão o nosso tempo. Já não vivemos metade no digital e metade fora; vivemos imersos. Pensamos, lemos, escrevemos, decidimos, ensinamos e trabalhamos num ambiente perpassado por mediações técnicas quase contínuas. O que me interessa, contudo, não é reiterar este diagnóstico, que hoje se tornou relativamente consensual. O que me interessa é questionar que tipo de formação humana almejamos construir dentro deste contexto? Se a resposta se limitar à adaptação, à literacia funcional e à fluidez tecnológica, estaremos a confundir educação com mera gestão de transição. E isso é manifestamente insuficiente, não acham?

No fundo, esta foi a síntese que extraí do cruzamento entre a perspetiva OnLife e as questões levantadas no vídeo da Ordem dos Advogados. A inovação educativa em rede não pode ser celebrada como uma apologia automática da tecnologia. Deve ser encarada como um exercício de discernimento. Não basta preparar os estudantes para habitar um mundo saturado de IA; é imperativo prepará-los para resistir à sedução de delegar excessivamente nela. E, simultaneamente, é crucial salvaguardar o papel do professor para que este não se converta num mero operador de sistemas pedagógicos inteligentes. Continuo a ser um entusiasta do uso ético da IA. Contudo, quanto mais aprofundo esta reflexão, menos crédito dou a discursos simplistas sobre uma modernização inevitável.

Há transformações que abrem portas a novas possibilidades. Há outras que apenas esvaziam funções ancestrais, rebatizando-as. Nem sempre isso é progresso.

 

Referências

Atilla-Aydın, S., & Lammasniemi, L. (2025). Preparing guidelines for generative AI in law schools: Student perspectives and educational implications. The Law Teacher. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/03069400.2025.2585427

Floridi, L. (Ed.). (2015). The onlife manifesto: Being human in a hyperconnected era. Springer Nature. https://doi.org/10.1007/978-3-319-04093-6

Moreira, J. A., & Schlemmer, E. (2020). Por um novo conceito de e-learning na educação digital onlife. Revista UFG20https://doi.org/10.5216/revufg.v20.63438

Ordem dos Advogados - Conselho Regional de Lisboa. (2024, 11 de abril). POD ESCLARECER 85 | Inteligência Artificial [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=Jg9-1Uu5szY&t=18s

Rose, E. (2026). Impact of AI on legal education and professional competency standards. University of Ibadan. ResearchGate. https://www.researchgate.net/publication/402776919_Impact_of_AI_on_Legal_Education_and_Professional_Competency_Standards

Thomson Reuters Institute. (2024, 2 de abril). Honing legal judgment: The AI era requires changes to how lawyers are trained during and after law school. Thomson Reuters. https://www.thomsonreuters.com/en-us/posts/legal/honing-legal-judgment-training-lawyers/

 


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